Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011

Seria, é claro, insuportável.


Seria, é claro, insuportável viver a cada momento com a plena consciência de tudo quanto aconteceu, está a acontecer  e está para acontecer a cada um de nós.

Mas se nos aventurarmos a discorrer sobre essa percepção e de que constam os seus limites e as suas fronteiras, veríamos que esses limites em caso nenhum se esgotam em nós mesmos. O que nos acontece, acontece em nós mas nunca nos acontece só a nós. Toda a nossa história tem raízes na história dos nossos antepassados e, tanto a deles como a nossa, na história do povo a que pertencemos e esse tem a história cruzada com a de outros povos, e assim por aí adiante até à (chamemos-lhe assim e façamos de conta que foi assim que a coisa se desenrolou) ameba primordial, arqui-avó de nós todos.

Eu não seria a pessoa que sou hoje se não tivesse gostado de ler o jornal em pequena. Era impresso num papel enorme que eu abria e lia de gatas no chão. Havia profusas notícias sobre o que os americanos andavam a fazer no Vietname. Eu mantinha um caderno com recortes do jornal, tinha um ódio de estimação por Nixon e tudo aquilo chocava-me profundamente, embora eu nem fizesse muito bem ideia do que seriam o napalm ou o agente laranja.  Mas a coisa importunava-me de forma quase omnipresente, como um espinho no coração.

O facto de que em criança eu sentia o Vietname de forma tão intensa que me ressentia dos americanos como se me estivessem a bombardear a mim (com a devida distância na consciência do enorme sofrimento a que aquele povo foi sujeito) sempre me causou algumas interrogações sobre essas fronteiras e limites da nossa percepção do que nos acontece e aos outros.

E por muito que o cepticismo materialista insista que isso são tudo balelas, eu sei que estamos todos ligados e que nalgum ponto, naquele a que uns chamam campo unificado, outros fonte,  consciência mãe, ou Deus pai, comunicamos e comungamos das dores do Samsara.
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Se pensarmos objectivamente no sofrimento do povo do Vietname, da população de Hiroshima e Nagasaki, do povo Iraquiano, Afegão, Curdo, Timorense, dos índios e dos negros escravizados, de todos os escravos de todos os tempos, das vítimas do nazismo, do fascismo, do estalinismo, do Maoismo, de todas as pessoas, sobretudo mulheres e crianças abusadas pelos seus familiares ou companheiros, e em seguida olharmos a figura maltratada e torturada dum cristo crucificado, vemos sem dificuldade que a crucificação do espírito na matéria é, na verdade, o tema fundamental desse ícone da religião cristã.E compreendemos porque é uma maldição, para os chineses, desejar a alguém que tenha uma vida interessante.



Cristo por Pedro Barbosa

Mas, por outro lado, se pensarmos nas palermices que fizemos enquanto jovens, sem noção do que estávamos a fazer, compreendemos que sem a experiência não haveria consciência. Para que se crie a consciência de TUDO e para que o amor se manifeste em todos os corações é preciso que tudo isto se manifeste.


Segunda-feira, 18 de Julho de 2011

De barco

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Domingo, 10 de Abril de 2011

clube de teatro

Oriento um clube de teatro na escola onde trabalho. E no caso deste clube, é muito mais do que trabalho. Dá-me um gozo monumental:

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Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

family frost, a mensagem do carrinho dos gelados





...Há dias assim... Estranhos, místicos, iluminados... Dias em que acordamos preocupados porque a nossa mãe está no hospital, e apesar de tudo o sol brilha, a nossa gata pisca-nos o olho da outra travesseira e depois sentamo-nos e enquanto saboreamos o gosto do pão barrado com compota de framboesa e creme de queijo e o da memória, mal aguentamos a luz que o chão da cozinha reflecte. Daí a pouco alugámos a uma senhoria saída dum passado remoto como dum buraco de Alice o atelier refúgio dos nossos sonhos com os vizinhos do nosso coração e a melhor porteira expert em cogumelos comestíveis do universo e arredores.

E depois, enquanto descemos o monte entre Olival e Sandim ou algo assim, temos uma epifania ao ver uma carrinha de gelados que segue à nossa frente com um ser de braços estendidos a dizer-nos "family frost"... E de repente, à nossa frente, muito mais do que a carrinha de gelados dançam nas curvas o yin e o yang, a água e o fogo, e a igualdade na família, que se não se faz pelo excesso duma das partes há-de fazer-se pelo defeito da outra.



Sábado, 7 de Agosto de 2010

Oh, communitas! Um por todos e todos por um!

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Mega-agrupamento. Este palavrão, já de si bastante feioso, toma contornos insuportáveis se formos ver o que realmente significa...
E o pior é que não há grande hipótese de que quem lhe deu pernas para andar a passear-se pelas nossas bocas, papéis e ecrãs e, receio, pelas nossas vidas, venha em breve a tomar consciência da enorme asneira que está a fazer.
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Isto por causa do significado duma outra palavra, que a Srª Ministra da Educação e o seu sobranceiro gabinete provavelmente desconhecem, porque se conhecessem e compreendessem, a menos que não fosse a nós, cidadãos, que quisessem servir, não sei como poderiam pôr-se a premeditar e a resolver mega-asneiras do calibre das mais recentes...
E digo resolver porque se trata, não duma lei, mas duma resolução, mais uma que contraria as muitas resoluções da assembleia da república que, por não terem força de lei, são simplesmente ignoradas, à boa maneira de quem sabemos.
Communitas!
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Oh doce e mal compreendida communitas! Essa sobre a qual já tantos pensaram e escreveram, descrita na wikipédia e noutros lugares como "um ponto preciso da comunidade em que os seus membros partilham sentimentos de grande igualdade social, de grandes solidariedade e proximidade, os quais permitem a reconsideração conjunta dos modos de agir colectivos."
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"Um processo no qual ninguém é marginalizado e existe um sentido comum de propósito."
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" Uma fase de transição que permite às sociedades encontrar soluções de vida radicalmente diferentes. Communitas é um espaço criativo e transformador. "
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"Communitas é também uma experiência pessoal. É como um rito de passagem que produz algo sagrado entre os indivíduos. Parte dessa sacralidade é alcançada através da humildade aprendida na transição que permite que seja sentida a experiência pessoal de comunhão com outros. O grupo de indivíduos atravessa colectivamente um portal."
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Pelo meio surge também a palavra liminar, e liminaridade, essa de explicação mais complexa (quem estiver para aí virado pode ler isto, por exemplo) mas que procurarei simplificar aludindo precisamente aos diversos rituais de passagem a que o indivíduo se sujeita, chegado ao limiar duma determinada situação, para atravessar para outra, rituais que se modificam conforme as sociedades, mas que têm por objectivo retirar e desenraizar temporariamente o indivíduo do ponto de hierarquia no colectivo em que se encontra para reinseri-lo, depois de sofrimentos ou experiências sacras e vividas em solidão, já "subido de posto", e disposto a aceitar as contingências e regras sociais a que a sua nova condição o obriga.
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Desse apanhado que extraí acima podemos compreender que comunidade, por si só, não implica a communitas. Há diversos exemplos de comunidades em que os indivíduos partilham de qualquer coisa em comum, por exemplo a língua, ou a escola em que andam, sem que isso lhes permita atravessar o doce, criativo e enraizador território da communitas. A qual , por sua vez, se estabelece de forma diferente de acordo com o grupo de indivíduos que a integram.
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Neste caso, estou a falar de um grupo de escolas, mais precisamente, do agrupamento de escolas a que pertenço, prenhe de crianços/adolescentes em estado mais ou menos liminar, não acompanhado por ritos de passagem precisos e sacralizados, como acontece nas sociedades primitivas, mas perdidos na crescente liminaridade geral a que a feroz individualização capitalista nos conduz a todos, apenas contrariada pelo fenómeno emergente, delicado, frágil e ameaçado duma communitas que se vai estruturando colectivamente, reforçada pela acção de algumas personalidades extraordinárias que tivemos o bom senso de eleger para a direcção.
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Vai-se estruturando pela vivência cíclica de diversos momentos de liminaridade colectiva em que se sai da estrutura hierárquica e pedagógica geral trazida de trás, e também fornecida ministerialmente para todas as escolas e agrupamentos de norte a sul, e se estabelece a verdadeira communitas.
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Deste facto resulta que o grupo heterogéneo, constituído por alunos, professores, profissionais admnistrativos e auxiliares da educação, psicólogos, educadores e pais, vai progressivamente adquirindo um caracter e uma identidade colectiva, que lhe permite conhecer o todo pelo reconhecimento cada vez maior das partes, crescer e estruturar-se em profundidade e não em superficialidade, descortinando necessidades, valências e motivos/motivações, e criando regras e soluções próprias, adaptadas não só ao colectivo, mas levando cada vez mais em conta as necessidades, as capacidades e as circunstâncias precisas de cada um.
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Bom, e depois do exposto, quem ainda não compreendeu o que quero dizer, também não vai querer compreendê-lo nunca. Resta-me concluir que o palavrão "mega-agrupamento" é sinistro, não por comprometer a qualidade de vida e bem estar da comunidade escolar obrigando a maioria a deslocações diárias extenuantes a troco duns cobres de poupança a um erário público em muitíssimo mais empobrecido para sustentar créditos artificiais á banca, mas sim porque significa o princípio do fim desse estado, desse incalculável valor da nossa communitas, tão morosamente construído, ano após ano.
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É uma séria machadada na nossa capacidade de agir localmente, com conhecimento, amizade, solidariedade e compaixão, mais um avanço a retro-escavadora legislativa do princípio dividir para reinar, desbaratando a comunidade num anonimato individualista onde não existe mais um por todos e todos por um, onde cada um só poderá ser por si, e todos se movimentarão caóticamente uns contra os outros. Será que não soubémos crescer o suficiente para reconhecermos, valorizarmos e garantirmos aquilo que nos querem retirar, a communitas, a força e a autonomia colectivas de resolvermos e nos organizarmos como é melhor para nós? Cada resolução prepotente dos ministérios no sentido da centralização de poderes significa a limitação crescente dessa nossa capacidade, e se não soubermos opôr-nos, estaremos cada vez mais perdidos.
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Sexta-feira, 6 de Agosto de 2010

metro

Smile or die

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Parece-me muito acertada a reflexão que a autora do texto deste vídeo faz sobre o perigo de entrarmos por uma culpabilização absoluta dos indivíduos sobre as suas circunstâncias, quando contabilizamos apenas as frequências positivas ou negativas que emitem.

O exemplo do Tsunami é muito bom, mas toda a interconectividade das nossas circunstâncias físicas, económicas e políticas, individuais e colectivas, serve de exemplo. A única objecção que tenho a apor é a de que, realmente, nessa individualização absoluta é que reside o erro.

Estamos de facto todos ligados no facto de pertencermos a uma só consciência e a co-criação em termos individuais é apenas um aspecto ou factor da realidade, mas isso não nos catapulta para nenhum filme do qual somos os realizadores exclusivos, nem nos redime das circunstâncias colectivas ou da responsabilidade pelo caldo social em que estamos a marinar...

Aliás, quem é que pode ser feliz através de alguma receita de sucesso que lhe resolva apenas os seus problemas existenciais imediatos, continuando a testemunhar a miséria que as condições colectivas do nosso sistema impõem à maioria?