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Há momentos em que as condições exteriores da nossa vida se alteram de forma tão drástica e. aparentemente, independente da nossa vontade, que só através dum exercício firme de total aceitação do presente podemos atravessa-los sem perdermos o norte nem cairmos num estado de insatisfação permanente e depressiva.
Somos um pouco como um ser (o espírito, a alma, a mente, chamem-lhe o que quiserem) que cavalga inter-dependente da sua montada, o nosso próprio corpo. Mas é o corpo que directamente se liga ao exterior e interage com ele. É o corpo que experimenta ao nível físico que gosta disto e não gosta daquilo. É precisamente no corpo que reside uma grande parte das nossas necessidades, desejos e emoções. Se ele entra num estado de negação do que acontece, o ser vê-se e deseja-se para poder responder à altura dos acontecimentos.
Quando era adolescente dei com um folheto de alimentação macrobiótica. Esse folheto trazia a figura duma mãe que afastava um brinquedo do seu bebé para que este caminhasse. E a leitura desse folheto foi mais do que a leitura de muitos livros de filosofia, porque consolidou para mim o conceito de que a Vida é como uma mãe, que permanentemente nos confronta com os nossos desejos e necessidades afastando a sua satisfação para que caminhemos.
Depois de muitos anos compreendi que, embora os nossos pensamentos, crenças, medos e desejos se tranformem na nossa realidade, esse é um caminho que se faz tanto de aprender a aceitar que podemos viver sem o brinquedo como de aprender que podemos chegar a ele.
O poder da aceitação é sem dúvida o maior poder de que podemos usufruir num mundo em que a mutação e a impermanência não só desde sempre foram implícitos, dada a natureza da própria existência, como se tornam cada mais rápidos na sucessão dos acontecimentos.
Não aceitar o que acontece é entrar em guerra com a parte de nós (a mente) capaz de conduzir as coisas para um bom resultado. É reagir ao que acontece em vez de agir com o que acontece. E esta aceitação estende-se não só do corpo à mente, mas também da mente ao corpo. Não é só importante aceitar o exterior, também é preciso aceitar a nossa verdade interior, coisas desagradáveis, como a tristeza e a saudade, que se não forem aceites ficarão uma eternidade cá dentro a sabotar-nos o presente. É preciso assumir a desilusão e chorar os nossos prantos até à última lágrima. Como uma roda que para girar tem que ter um alto e um baixo, os nossos prantos são o reverso da nossa felicidade.
Desse estado de aceitação, que se poderia confundir com passividade, mas não é, muito pelo contrário, dependem a nossa felicidade e a nossa capacidade de agir no presente senhores de todas as nossas possibilidades e energias. Dele depende a capacidade de partilharmos connosco mesmos a alegria pelo que está a acontecer. De nos alegrarmos em nós mesmos, sózinhos no mundo, mesmo que privados da companhia daqueles que mais amamos. De sabermos ver a oportunidade única do presente como meta permanente.
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