Quinta-feira, 18 de Março de 2010

Ainda no meu Walden Pond

Escrevo estas linhas sentada à secretária que improvisei na sala da casa onde resolvi viver a minha experiência a la Walden. A la Thoreau, deveria dizer talvez, mas a modéstia impede-me. A verdadeira modéstia, devo acrescentar.

À minha direita, a lareira. Ainda apagada, mas vou acendê-la em breve. Faz um frio danado, no meio destes bosques junto ao rio. Sim, muito mais à minha direita, ao fundo da encosta, corre o rio Douro, uma massa de água realmente dourada que faz uma curva ampla e magestosa entre os montes. À tardinha, e apesar da aparente visibilidade, sobem massas de névoa fria que galgam as encostas e me gelam a casa.

À minha esquerda o rádio toca jazz - com brancas - é a antena dois, a única que autorizo a fazer-se ouvir no meu Walden.

Deveria ter escrito antes, era isso que eu queria e isso que a Assunção me tinha feito prometer. A Assunção é a minha amiga mais antiga, aquela que atravessou as épocas e permaneceu sempre igual. Além disso é admiradora das coisas que escrevo e acha que eu devia escrever um livro. Tenho dificuldade em explicar-lhe, como tenho dificuldades em explicar a quem quer que seja, quanto mais à Assunção, os silêncios compulsivos a que o meu coração me remete, sem que eu possa fazer nada.

Vim aqui parar porque o desejei. Por amor, mesmo. Vi pela primeira vez estas paragens há cinco anos, num dia em que, na escola onde trabalho outra vez, se resolveu mostrar-nos o âmago da alma do lugar. E muito embora, na altura recém-chegada, estivesse demasiado encouraçada para compreender o que isto é e porque nos trouxeram aqui, fiquei apaixonada.



É lindo, o meu Walden. Não posso descrevê-lo, como nunca me teria passado pela cabeça dizer de alguém que é muito, muito mais do que isso, que é alto, dum louro escuro e o seu pescoço robusto tem qualquer coisa de touro. Só pude reconhecê-lo. Sim, é lindo. E é tal e qual como o desejei e o imaginei. Excepto o frio. Não podia prever que fosse tão cruelmente frio. Tão gelado que nos remeteu ao silêncio, a mim e ao meu coração. O que, em si, nem é mau, nem é bom, e era mesmo do que eu estava a precisar.

Passeei-me pelos bosques de castanheiros e carvalhos (vou tentar acender a lareira pela terceira vez, mas até o jornal fica húmido em duas noites) pelos fins de tarde de Outono, fins de tarde dourados junto ao rio Douro, armada em Robinson Crusoe das minas, buscando cogumelos e sextas-feiras. Coisa que só desejei encontrar - e encontrei - no Porto. Excepto os cogumelos. E até tive uma experiência a la Crusoe, quando deparei com uns Lepiotas destroçados por um pé indesejado. Depois dumas investigações, conclui que o pé pertencia a umas ovelhas que pastam nas imediações e são os meus únicos vizinhos, se descontarmos um esquilo raramente visível, e umas corujas sempre invisíveis mas muito audíveis, sobretudo nas noites de insónia, em que se divertem a assustar-me com piadas lúgubres e pungidas. E os pássaros, claro, muitos e cada vez mais ruidosos nas manhãs da Primavera que se aproxima.

Podia tê-lo visto e tê-lo sabido perto, espreitá-lo de vez em quando e ficar-me por aí. Mas quis vivê-lo, viver o estar absolutamente só, em vez de no meio de gente, no meio da natureza, confrontada com os seus silêncios e os seus sons, com os meus silêncios e os meus sons, uns que fossem mesmo os meus e não respostas a gente e a interpretações de gente. E tive por companhia a música da antena dois e o fogo e as corujas, algumas tempestades que fizeram tremer e rachar os vidros, o vento e a chuva, e o frio... o rio e a morte. Li muito menos do que imaginava e foram-se embora depressa os dias em que sobrava alguma luz para passear junto ao rio nos fins de tarde. Aí chorava, junto ao rio (muito chorei, não sabia que tinha tantas lágrimas adiadas). Depois veio o duro Inverno e passei a chorar junto ao fogo, à noite.

E as pessoas perguntavam-me se eu não tinha medo e eu não conseguia explicar-lhes que não havia espaço para o medo no abraço intenso que sentia entre mim e o meu Walden, numa casa que como uma mãe me recebeu em cada regresso sem perguntar quem eu era, ouviu os meus monólogos e os meus silêncios, e me deixou ser a paz e a aflição do coração, o presente e o passado e o futuro numa toca imensa, junto a um rio...

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