.Mega-agrupamento. Este palavrão, já de si bastante feioso, toma contornos insuportáveis se formos ver o que realmente significa...
E o pior é que não há grande hipótese de que quem lhe deu pernas para andar a passear-se pelas nossas bocas, papéis e ecrãs e, receio, pelas nossas vidas, venha em breve a tomar consciência da enorme asneira que está a fazer.
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Isto por causa do significado duma outra palavra, que a Srª Ministra da Educação e o seu sobranceiro gabinete provavelmente desconhecem, porque se conhecessem e compreendessem, a menos que não fosse a nós, cidadãos, que quisessem servir, não sei como poderiam pôr-se a premeditar e a resolver mega-asneiras do calibre das mais recentes...
E digo resolver porque se trata, não duma lei, mas duma resolução, mais uma que contraria as muitas resoluções da assembleia da república que, por não terem força de lei, são simplesmente ignoradas, à boa maneira de quem sabemos.
Communitas!
.Oh doce e mal compreendida communitas! Essa sobre a qual já tantos pensaram e escreveram, descrita na wikipédia e noutros lugares como "um ponto preciso da comunidade em que os seus membros partilham sentimentos de grande igualdade social, de grandes solidariedade e proximidade, os quais permitem a reconsideração conjunta dos modos de agir colectivos."
."Um processo no qual ninguém é marginalizado e existe um sentido comum de propósito."
." Uma fase de transição que permite às sociedades encontrar soluções de vida radicalmente diferentes. Communitas é um espaço criativo e transformador. "
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"Communitas é também uma experiência pessoal. É como um rito de passagem que produz algo sagrado entre os indivíduos. Parte dessa sacralidade é alcançada através da humildade aprendida na transição que permite que seja sentida a experiência pessoal de comunhão com outros. O grupo de indivíduos atravessa colectivamente um portal."
."Communitas é também uma experiência pessoal. É como um rito de passagem que produz algo sagrado entre os indivíduos. Parte dessa sacralidade é alcançada através da humildade aprendida na transição que permite que seja sentida a experiência pessoal de comunhão com outros. O grupo de indivíduos atravessa colectivamente um portal."
Pelo meio surge também a palavra liminar, e liminaridade, essa de explicação mais complexa (quem estiver para aí virado pode ler isto, por exemplo) mas que procurarei simplificar aludindo precisamente aos diversos rituais de passagem a que o indivíduo se sujeita, chegado ao limiar duma determinada situação, para atravessar para outra, rituais que se modificam conforme as sociedades, mas que têm por objectivo retirar e desenraizar temporariamente o indivíduo do ponto de hierarquia no colectivo em que se encontra para reinseri-lo, depois de sofrimentos ou experiências sacras e vividas em solidão, já "subido de posto", e disposto a aceitar as contingências e regras sociais a que a sua nova condição o obriga.
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Desse apanhado que extraí acima podemos compreender que comunidade, por si só, não implica a communitas. Há diversos exemplos de comunidades em que os indivíduos partilham de qualquer coisa em comum, por exemplo a língua, ou a escola em que andam, sem que isso lhes permita atravessar o doce, criativo e enraizador território da communitas. A qual , por sua vez, se estabelece de forma diferente de acordo com o grupo de indivíduos que a integram.
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Neste caso, estou a falar de um grupo de escolas, mais precisamente, do agrupamento de escolas a que pertenço, prenhe de crianços/adolescentes em estado mais ou menos liminar, não acompanhado por ritos de passagem precisos e sacralizados, como acontece nas sociedades primitivas, mas perdidos na crescente liminaridade geral a que a feroz individualização capitalista nos conduz a todos, apenas contrariada pelo fenómeno emergente, delicado, frágil e ameaçado duma communitas que se vai estruturando colectivamente, reforçada pela acção de algumas personalidades extraordinárias que tivemos o bom senso de eleger para a direcção.
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Vai-se estruturando pela vivência cíclica de diversos momentos de liminaridade colectiva em que se sai da estrutura hierárquica e pedagógica geral trazida de trás, e também fornecida ministerialmente para todas as escolas e agrupamentos de norte a sul, e se estabelece a verdadeira communitas.
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Deste facto resulta que o grupo heterogéneo, constituído por alunos, professores, profissionais admnistrativos e auxiliares da educação, psicólogos, educadores e pais, vai progressivamente adquirindo um caracter e uma identidade colectiva, que lhe permite conhecer o todo pelo reconhecimento cada vez maior das partes, crescer e estruturar-se em profundidade e não em superficialidade, descortinando necessidades, valências e motivos/motivações, e criando regras e soluções próprias, adaptadas não só ao colectivo, mas levando cada vez mais em conta as necessidades, as capacidades e as circunstâncias precisas de cada um.
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Bom, e depois do exposto, quem ainda não compreendeu o que quero dizer, também não vai querer compreendê-lo nunca. Resta-me concluir que o palavrão "mega-agrupamento" é sinistro, não por comprometer a qualidade de vida e bem estar da comunidade escolar obrigando a maioria a deslocações diárias extenuantes a troco duns cobres de poupança a um erário público em muitíssimo mais empobrecido para sustentar créditos artificiais á banca, mas sim porque significa o princípio do fim desse estado, desse incalculável valor da nossa communitas, tão morosamente construído, ano após ano.
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É uma séria machadada na nossa capacidade de agir localmente, com conhecimento, amizade, solidariedade e compaixão, mais um avanço a retro-escavadora legislativa do princípio dividir para reinar, desbaratando a comunidade num anonimato individualista onde não existe mais um por todos e todos por um, onde cada um só poderá ser por si, e todos se movimentarão caóticamente uns contra os outros. Será que não soubémos crescer o suficiente para reconhecermos, valorizarmos e garantirmos aquilo que nos querem retirar, a communitas, a força e a autonomia colectivas de resolvermos e nos organizarmos como é melhor para nós? Cada resolução prepotente dos ministérios no sentido da centralização de poderes significa a limitação crescente dessa nossa capacidade, e se não soubermos opôr-nos, estaremos cada vez mais perdidos.
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Gostei!
ResponderEliminarconcordo com a sua visão!
Bom artigo! Há dez anos falava-se da gestão autónoma de escolas! O que se fez? Continuamos com as escolas centralizadas e limitadas ao cumprimento legal da política de governos. Temos escolas com medo de agir e inovar. Temos escolas ao serviço do Ministério da Educação e do Ministério da Economia em vez de serem agentes de cultura no seio da comunidade!
ResponderEliminar...
Realmente os Mega-Agrupamentos é o regresso à cultura de massas em que a pessoa é um mero número.
Hoje vive-se muito para os números, diria o terror dos números.
Obrigado pela tua voz!